Se existe um lugar público no qual mais revelamos nossa intimidade é o supermercado. E era exatamente onde eu estava, com a mais difícil das missões em meu bolso. Devia decifrar uma lista de compras maldosamente escrita pela minha empregada. Enquanto deslizava meu carrinho em meio às prateleiras com infinitos tipos de produtos, concluía informações a respeito das pessoas a minha volta. Uma mulher colocava frutas e leite em pó em seu carrinho, dessa forma pude concluir que ela tinha um filho bebê. Não tem jeito de escapar dessa regra, se quer manter sua vida pessoal, nunca vá a um supermercado.
Passei a tentar decifrar a lista de compras. Havia alguma coisa escrita ali, parecia frango. Bom, concluí que era melhor comprar o frango. Levei meu carrinho pelo chão escorregadiço até o balcão de carnes. Entrei na fila atrás de um homem exageradamente gordo. Seu carrinho estava carregado apenas com alimentos light. Notei que o homem parecia bastante com uma morsa. Após alguns minutos na fila ,o animal marinho comprou os pobres animais que iriam cair no fundo daquela barriga nojenta e eu fui atendido. Comprei o frango e voltei à lista. As palavras não se pareciam com nada que eu já tivesse lido nesse planeta. Com um esforço fenomenal dos meus olhos decodifiquei duas das palavras. Papel-higiênico e manteiga. Qual dos dois deveria pegar primeiro? Decidi que iria atrás da manteiga primeiro, a comida sempre vem primeiro.
Depois de algum tempo naquele labirinto consumista localizei o corredor de lacticínios. Ao chegar nas manteigas vi que teria um problema. Havia mais de 5 tipos diferentes do alimento. Havia manteiga sem gordura, com 0% de gordura, com pouca gordura e com duas vezes mais gordura do que a com pouca gordura. Passei a empenhar toda minha inteligência nessa complicada questão gordurosa. As opções sem gordura e 0% eram tentadoras e apresentavam conteúdos bem distintos. Enquanto refletia profundamente essa questão o homem-morsa retirou uma manteiga sem sal e gordura. Nesse momento ri da minha própria idiotice. Deveria aproveitar-me do maravilhoso metabolismo que Deus me concedeu. Eu iria pegar a mais gordurenta possível. Isso ensinaria aquele homem os privilégios que se ganha ao se ter um peso que possa ser medidos por balanças normais. Ao resolver a questão da manteiga me dirigi à sessão de higiene pessoal.
O papel-higiênico na minha humilde opinião se encontra na lista de maiores invenções da humanidade. Assim como a manteiga existem vários tipos de papel-higiênico. Estava em dúvida entre o extra macio levemente perfumado e o de folha dupla sensivelmente aromatizada. Qual dos dois atenderia melhor as exigências de meu órgão traseiro? Decidi levar o extra macio levemente perfumado, esse com certeza era bom o suficiente para as minhas exigentes nádegas. Voltei mais uma vez a lista. Mas após muitos minutos encarando os hieróglifos no papel percebi que estava derrotado. Não conseguiria vencer anos de analfabetismo crônico. Era melhor ir embora.
Enquanto me dirigia ao caixa lembrava-me da regra básica de supermercados, e que eu ignorei. As bancadas de atendimento sempre vão estar cheias se você demorar mais de meio minuto para comprar o que necessita. Minha profecia se realizou como previ, todas as bancadas de atendimento estavam abarrotadas de pessoas. Porém, como uma dádiva do céu, o último caixa estava vazio. Passei a deslizar meu carrinho o mais rápido possível em direção aquela miragem. Estava a uma distância ridícula quando uma barriga monstruosa escureceu minha vista. A única bancada livre havia sido roubada pelo meu amigo morsa. Senti-me traído. Após o que julguei durar uma hora, a atendente conseguiu descarregar e empacotar todos os produtos do traidor. Fui atendido e pude finalmente ir embora.
No carro, decidi que iria ligar para o supermercado e fazer uma reclamação. De que adianta a placa: proibida a entrada de animais, se qualquer mamífero marinho pode entrar e comprar no estabelecimento?
sábado, 24 de novembro de 2007
Supermercado
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Lagostas à La Carte
O lugar era quente e apertado. Várias mesas vazias, apenas eu lá dentro, bom sinal de qualidade. Percebi ao fundo um tanque de água, dentro dele residiam seres, que para o meu bem, supus serem crustáceos. Sentei-me. O boteco era realmente de alta classe, não vi nenhuma barata. Acho que deveria passar a chamá-lo de restaurante. Uma garçonete veio até mim e me deu um cardápio, a mulher era baixa e emanava uma antipatia cativante. No cardápio, várias opções de bebidas, mas meu estômago desejava lagostas. Pensei nas pobres lagostas, deveria mesmo come-las? Era justo? E se a pobre coitada que caísse em meu furioso estômago tivesse família e amigos? Senti-me engraçado, o destino daquela lagosta estava em minhas mãos, ou dentes, se preferir. Poderia adotar a lagosta. A idéia não era ruim, pessoas importantes tais como, Homer Simpson, adotaram lagostas. Mas se não me engano ele acaba comendo o precioso animal no final do episódio.
A garçonete pigarreou despertando-me de meus pensamentos. Encarei a mulher, era baixa. Levantei-me, ignorando a baixinha que agora demonstrava grande irritação, e me dirigi ao tanque com os pequenos monstrinhos. Procurei pelo meu alvo, e finalmente localizei uma bela lagosta. Ela me encarava pelo vidro, sorri. Eu era um Deus, o destino dela dependia de mim. A lagosta, rebelde, batia suas patas contra o vidro. Era uma herege, merecia ser queimada por desafiar seu Deus. Decidi come-la. Mas e se tivesse família? Meu estômago respondeu por mim. Pois bem, perguntaria a graciosa garçonete se aquela lagosta tinha família. Caso a resposta fosse afirmativa, bem, eu estava realmente com fome. Com essa conclusão percebi que todos ali deviam me obedecer e respeitar, além de Deus eu era um rei.
Sentei-me novamente. A garçonete me fuzilava com o olhar, ignorei. Eu era a realeza e ela uma plebéia. Sem mais delongas, exigi que ela me trouxesse o banquete real. Ao terminar de comer, o monstro em meu estômago descansava satisfeito.
Fui embora do restaurante em êxtase, era superior a todos que andavam naquela pequena esquina, eu era o Deus das lagostas e rei daquele restaurante. Infelizmente, hoje em dia, nós Deuses não somos respeitados como nos bons tempos. Um pivete passou zunindo por mim de bicicleta e logo dei falta da minha carteira.
Eu sinceramente não sei onde esse mundo vai terminar, depois dessa violação dos direitos humanos, percebi que o que falta no mundo são reis e deuses como eu.
Iniciando pelo final...
Sempre achei engraçados esses blogs, meio sem fundamento, mas sempre soube que não iria resistir à tentação de cair nessa "onda", e não deu outra.
Resolvi criar um fórum, mas o que escrever? Contar minha vida? Não...isso aqui seria muito chato. Dessa forma criarei um personagem. E contarei o mundo, que eu vejo, pelos olhos dele.
A personagem não tem nome, não tem sexo, apenas se imaginem no lugar dela. E se por acaso um dia eu venha a cometer o engano de usar um substantivo masculino ou feminino ao me referir ao enigmático contador de histórias presente nesse blog, perdoem-me. Apenas imaginem que o substantivo é adequado ao seu sexo...
Um último comentário a respeito do título dessa postagem: decidi que o nome do tópico de inauguração deve ser esse pois por algum motivo, a postagem inicial acaba sendo condenada ao ostracismo na última data desde a criação do blog.
Resolvi criar um fórum, mas o que escrever? Contar minha vida? Não...isso aqui seria muito chato. Dessa forma criarei um personagem. E contarei o mundo, que eu vejo, pelos olhos dele.
A personagem não tem nome, não tem sexo, apenas se imaginem no lugar dela. E se por acaso um dia eu venha a cometer o engano de usar um substantivo masculino ou feminino ao me referir ao enigmático contador de histórias presente nesse blog, perdoem-me. Apenas imaginem que o substantivo é adequado ao seu sexo...
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