terça-feira, 20 de novembro de 2007

Lagostas à La Carte

Em minhas andanças de sábado à noite procurando algum programa que me retirasse do ócio de minha vida, resolvi que já era hora de variar minha programação. Comeria fora. Passei a caminhar a procura de um lugar que atendesse aos anseios de meu estômago. Enquanto seguia com essa difícil tarefa, envolvido em pensamentos que cada vez mais aumentavam a fúria do monstro em minha barriga, percebi que me encontrava em frente a uma placa em néon. A placa luminosa indicava com uma seta e letras grandes um boteco. Li a placa, temos Lagostas à La Carte. Até botecos agora serviam lagostas? Devia ser um boteco bem arrumado. Resolvi entrar.
O lugar era quente e apertado. Várias mesas vazias, apenas eu lá dentro, bom sinal de qualidade. Percebi ao fundo um tanque de água, dentro dele residiam seres, que para o meu bem, supus serem crustáceos. Sentei-me. O boteco era realmente de alta classe, não vi nenhuma barata. Acho que deveria passar a chamá-lo de restaurante. Uma garçonete veio até mim e me deu um cardápio, a mulher era baixa e emanava uma antipatia cativante. No cardápio, várias opções de bebidas, mas meu estômago desejava lagostas. Pensei nas pobres lagostas, deveria mesmo come-las? Era justo? E se a pobre coitada que caísse em meu furioso estômago tivesse família e amigos? Senti-me engraçado, o destino daquela lagosta estava em minhas mãos, ou dentes, se preferir. Poderia adotar a lagosta. A idéia não era ruim, pessoas importantes tais como, Homer Simpson, adotaram lagostas. Mas se não me engano ele acaba comendo o precioso animal no final do episódio.
A garçonete pigarreou despertando-me de meus pensamentos. Encarei a mulher, era baixa. Levantei-me, ignorando a baixinha que agora demonstrava grande irritação, e me dirigi ao tanque com os pequenos monstrinhos. Procurei pelo meu alvo, e finalmente localizei uma bela lagosta. Ela me encarava pelo vidro, sorri. Eu era um Deus, o destino dela dependia de mim. A lagosta, rebelde, batia suas patas contra o vidro. Era uma herege, merecia ser queimada por desafiar seu Deus. Decidi come-la. Mas e se tivesse família? Meu estômago respondeu por mim. Pois bem, perguntaria a graciosa garçonete se aquela lagosta tinha família. Caso a resposta fosse afirmativa, bem, eu estava realmente com fome. Com essa conclusão percebi que todos ali deviam me obedecer e respeitar, além de Deus eu era um rei.
Sentei-me novamente. A garçonete me fuzilava com o olhar, ignorei. Eu era a realeza e ela uma plebéia. Sem mais delongas, exigi que ela me trouxesse o banquete real. Ao terminar de comer, o monstro em meu estômago descansava satisfeito.
Fui embora do restaurante em êxtase, era superior a todos que andavam naquela pequena esquina, eu era o Deus das lagostas e rei daquele restaurante. Infelizmente, hoje em dia, nós Deuses não somos respeitados como nos bons tempos. Um pivete passou zunindo por mim de bicicleta e logo dei falta da minha carteira.
Eu sinceramente não sei onde esse mundo vai terminar, depois dessa violação dos direitos humanos, percebi que o que falta no mundo são reis e deuses como eu.

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