sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cinema

Minha mãe vem me dizendo nos últimos meses para me distrair, arranjar algo para aliviar minhas tensões, parar de trabalhar tanto. Quando perguntei o que ela sugeria ela me olhou como se eu fosse o mais inteligente dos idiotas e me mandou comprar um cachorro. 
Sexta a noite. Eu deitado, apertando obstinadamente o botão de troca de canal do meu controle remoto, enquanto a interessantíssima programação noturna da TV aberta saltava aos meus olhos. Parei por um momento para ver a desgraça do dia, e depois novamente para degustar a nova mulher alimentícia do pedaço. Cansado, desliguei. Deitei no sofá entediado observando a complexidade do meu teto enquanto os dois dias de trabalho atrasados latejavam em meu cérebro. Eu precisava desesperadamente me distrair. Fui forçado a concordar com minha mãe. Não, não fui comprar um cachorro. Fui ao centro de entretenimento mais recorrido nos momentos de tédio e nos primeiros encontros. Cinema.
Sempre quis ir em um daqueles cinemas ao ar livre, onde assistíamos de dentro do carro. Mas infelizmente nasci em uma época na qual a modernidade consumista tirou toda a magia do cinema. Entrei no shopping e me dirigi ao cinema. Não sem antes parar para comprar uma jaqueta de inverno lindíssima que estava na promoção. 
Chegando ao cinema com meu pacote em mãos tive que aturar as reclamações de uma mulher quanto a potência do ar condicionado e algo sobre ela estar pingando. Uma mulher de peso altamente questionável se deleitava com um sorvete hiper calórico. O capitalismo realmente atingiu o nosso mundo, fui até o balcão de compra de ingressos me perguntando onde esse mundo ia parar.
Nada poderia ter me preparado para aquele momento. A pergunta me atingiu como uma bomba. Fiquei desnorteado. Como assim que filme? Não havia pensado nisso. Só queria me distrair. Perguntei qual ela sugeria. Ela soltou uma gentil bufada e me respondeu carinhosamente que havia um sobre um cachorro falante bastante assistido. Não obrigado, sou alérgico a cachorros. Ela me olhou com a infinita paciência de uma atendente de salário mínimo. Ignorando sua simpatia olhei para os pôsteres dos filmes em cartaz. Fiquei pensando em qual deles escolher, enquanto a mulher esperava pacientemente. 
Resolvi escolher na sorte. Fiquei com o drama. Comprei e agradeci a mulher do salário mínimo. Ela respondeu com gracioso olhar. 
Dentro do cinema fui atingido por outro problema. O que comer? Pipoca logicamente. Fui até a nova atendente e pedi uma pipoca e um refrigerante. Fui secamente respondido pela atendente com um: que tipo? Como assim que tipo? O tipo de milho, oras. Ela então apontou para os diversos combos impressos em um menu. Fiquei em dúvida entre: Pipoca super amanteigada com refrigerante extra e a pipoca levemente salgada com refrigerante extra mais barra de chocolate. Os dois me pareciam suficientemente calóricos. Escolhi o estupidamente amanteigado com mais refrigerante. Com meu saudável lanche em mãos me dirigi a minha sala.
Estava vazia ainda, o que me possibilitava escolher o lugar. Engraçado, relaxar normalmente significa não precisar ficar tomando decisões. Pois bem, nas primeiras fileiras seria muito perto, ler a legenda e ver ao mesmo tempo não é uma habilidade da qual eu possa me gabar. Se me sentasse muito atrás teria de fazer companhia a casaizinhos adolescentes apaixonados, e por experiência própria, o cinema não é um lugar onde as morais bíblicas são prioridade, preferi preservar meu pudor. O meio parecia a escolha ideal. Com o lugar decidido me sentei e esperei a telona começar a exibir meu drama.
Passaram-se alguns minutos e a sala estava lotada. Primatas impacientes jogavam pipoca e gritavam pelo início do filme. As luzes se apagaram, seguidas de um grito vindo do mesmo grupo de primatas e de vários chiados pedindo silêncio. A projeção começou. 
Algo tirava minha atenção. Demorou alguns minutos para eu conseguir identificar de onde vinha uma agradável melodia degustativa que impossibilitava o áudio do filme de chegar aos meus ouvidos. Demorou, mas qual não foi minha surpresa ao olhar para o lado e ver a mesma mulher de peso questionável que antes comia o sorvete agora cravando suas presas em um punhado de indefesos milhos estourados. Até ai eu ainda achava que iria relaxar, foi somente quando na primeira cena triste que eu percebi que seria uma longa sessão. Na telona o mocinho chorava diante da amada baleada. Na vida real, a devoradora de pipocas chorava compulsivamente diante de uma bacia de telespectadoras amareladas. Nas fileiras mais acima os meus amigos macacos riam como hienas prestes a devorar carcaça de um boi gordo. 
Foram duas longas e cansativas  horas, regadas a risadas e choros compulsivos. Ao fim da película a mulher ao meu lado se dobrava em lágrimas incessantes. As hienas já haviam deixado o cinema escoltadas por um homem fortemente armado com uma lanterna.
Saí da sessão tão relaxado quanto entrei. Passei na lanchonete do cinema para comprar um último refrigerante e a atendente emendou um volte sempre. Foi o suficiente. Já havia feito minha decisão. Antes um feroz animal doméstico do que a selva humana no escurinho do cinema.

2 comentários:

Ana Lídia disse...

Achei!!

Anônimo disse...

Se um dia visitares aqui entra em contato comigo meu email: lucasrczz.01@gmail.com sou antigo amigo teu de forum, nunca esqueci desses teus textos, gostaria de entrar em contsto contigo pra saber como tu andas!